Estudo Revela Importância da Diversidade Genética
Um inovador projeto desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) está alinhando ciência, meio ambiente e economia. A pesquisa, realizada em Canoinhas, no Planalto Norte de Santa Catarina, trouxe à tona importantes dados sobre a biodiversidade local, destacando a relevância da conservação em face do desenvolvimento industrial.
Durante cerca de seis meses, entre o final de 2024 e o início de 2025, a equipe liderada pelo professor Tiago Montagna, pertencente ao Departamento de Fitotecnia do Centro de Ciências Agrárias (CCA), investigou os efeitos de uma potencial supressão de aproximadamente 40,8% de um fragmento de Floresta Ombrófila Densa. O foco estava na diversidade genética de três espécies ameaçadas: Araucaria angustifolia (araucária), Ocotea porosa (imbuia) e Curitiba prismatica (cerninho). O trabalho foi realizado em uma área de 12,8 hectares que pertence à Cia. Canoinhas de Papel, situada na região.
A Demanda por Estudos Ambientais
A pesquisa foi solicitada pelo Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA), o órgão responsável pelo licenciamento ambiental no estado, como condição para a expansão da planta industrial da empresa. O estudo foi executado pelo Núcleo de Pesquisas em Florestas Tropicais da UFSC, em parceria com a Restauração Ambiental Sistêmica Ltda. O principal objetivo era avaliar se a supressão de 5,22 hectares poderia resultar em perdas significativas de diversidade genética nas espécies analisadas. Para isso, foi realizada uma comparação entre os indivíduos da área planejada para a supressão e aqueles em áreas de conservação, totalizando 7,58 hectares.
Resultados e Implicações da Pesquisa
Os pesquisadores coletaram amostras foliares que foram submetidas a análises isoenzimáticas no Laboratório de Fisiologia do Desenvolvimento e Genética Vegetal da UFSC. Os resultados indicaram que tanto a araucária quanto a imbuia apresentavam altos níveis de diversidade genética, superando ou equivalendo às médias previamente reportadas para outras regiões do estado. No entanto, a supressão proposta implicaria na eliminação de grandes porções da população: cerca de 55% dos indivíduos de araucária, 70% dos de imbuia e 40% dos cerninhos estariam em risco. Isso, segundo o estudo, poderia aumentar o risco de perda de diversidade genética no futuro.
Para o cerninho, embora a diversidade genética fosse considerada baixa, a quantidade local do recurso — mais de 2 mil indivíduos — ajudaria a atenuar os riscos imediatos de perda, de acordo com os cientistas. “Embora os dados apontem para perdas potenciais, o parecer final concluiu que a supressão poderia ser viável, desde que acompanhada de estratégias de compensação”, destacou Montagna. Essas medidas incluem a coleta e produção de mudas a partir de sementes de indivíduos com alelos exclusivos e a suspensão de práticas de roçada na área afetada.
Contribuições Científicas e Práticas do Estudo
A equipe de investigação foi composta por seis profissionais, incluindo docentes e alunos de pós-graduação e graduação, que participaram ativamente de todas as etapas da pesquisa, desde a coleta de amostras até a análise de dados. “Este projeto, sob a perspectiva científica e social, forneceu dados inéditos sobre a diversidade genética das espécies em Canoinhas. As informações obtidas servirão como subsídios para manejo e conservação, especialmente em cenários com impactos ambientais, além de estabelecer protocolos que podem ser aplicados em futuros empreendimentos”, comentou Montagna.
O estudo não apenas representa um requisito técnico para o licenciamento, mas também contribui significativamente para o conhecimento sobre a conservação genética de espécies da Mata Atlântica. A Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária (Fapeu) desempenhou um papel crucial na gestão administrativa e financeira do projeto. “Sem a Fapeu, que garantiu os recursos e a infraestrutura necessários, a execução do projeto não teria sido possível”, finalizou Montagna.

