Desespero e Recomeço: A Jornada de Mulheres Imigrantes
A história de Dalia Bristol, que em 2022 deixou Cuba com seu marido e filhas, reflete o desespero que leva muitas mulheres a cruzar fronteiras. Em sua jornada, Dalia enfrentou desafios imensos, desde atravessar o rio que separa a Guiana do Brasil até percorrer cerca de 10 mil quilômetros até Palhoça, na Grande Florianópolis. Com 15 mil dólares guardados, ela esperava que o valor fosse suficiente para recomeçar, mas, ao se deparar com a hostilidade e o sentimento de não pertencimento, o que parecia uma nova vida se tornou uma luta constante.
As mulheres imigrantes que chegam a Florianópolis muitas vezes enfrentam a falta de acolhimento e a falta de preparo do poder público para integrá-las à sociedade. Migrar representa um recomeço, mas para aquelas que vêm movidas pelo desespero, o caminho é ainda mais complicado. Questões como idioma, moradia, alimentação, saúde, emprego e educação tornam-se barreiras adicionais à regularização da documentação, um processo por si só complexo e demorado.
“É como nascer de novo. Precisei reaprender a caminhar”, desabafa Dalia, resumindo a luta por reintegração.
Crescimento do Fluxo Migratório Feminino
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Dados do Sistema de Registro Nacional Migratório (SisMigra) mostram que, em 2025, a Região Metropolitana de Florianópolis recebeu 2.532 mulheres migrantes, um aumento significativo em relação a anos anteriores. Entre essas mulheres, predominam argentinas, cubanas, venezuelanas e haitianas. Em 2024, o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) registrou 600 solicitações de refúgio, muitas delas de mulheres provenientes de países como Cuba e Venezuela.
A Defensoria Pública da União (DPU) assume um papel central no atendimento legal a essas mulheres, oferecendo suporte na regularização do status migratório. Jose Rafael Gonzalez, venezuelano à frente do setor, explica que, apesar de não serem psicólogos, servem como um primeiro ponto de contato acolhedor. Victoria Pizzanelli, argentina naturalizada brasileira, destaca a força e coragem dessas mulheres, ressaltando a importância de encorajá-las em suas jornadas.
Desafios de Gênero na Migração
A migração feminina é reconhecida globalmente como uma questão de igualdade de gênero. Conflitos, desastres humanitários e a busca por uma vida digna impulsionam muitas mulheres a deixar seus lares. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) aponta que as mulheres representam cerca de 48% do total de imigrantes mundialmente. No Brasil, esse percentual também aumentou, refletindo um fenômeno conhecido como “feminização da imigração”.
Gabriela Martini, mestre em Estudos Étnicos e Migratórios, nota que, embora as mulheres sempre tenham migrado, muitas vezes eram vistas como acompanhantes dos maridos. Hoje, a narrativa se transforma, e a autonomia feminina no processo migratório é reconhecida.
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Construindo Redes de Apoio
As histórias de Beny Simba, Merlina Saudade Ferreira e Dalia Bristol se entrelaçam em sua luta por pertencimento. Elas relatam experiências de rejeição e preconceito, mas também de resistência e superação. Merlina, que deixou a Venezuela com seus filhos, encontrou desafios tanto em relação à xenofobia quanto à dificuldade de alugar uma casa. Sua força e determinação refletem-se em seu desejo de proporcionar uma vida melhor para seus filhos.
Dalia, por sua vez, luta contra a saudade e o sentimento de exclusão, mas busca criar um lar seguro para suas filhas. As três mulheres compartilham a convicção de que, apesar das dificuldades enfrentadas, é possível construir redes de apoio entre si e outras migrantes.
Hospitalidade e Inclusão: O Papel das Organizações
Organizações como a Círculos de Hospitalidade trabalham para promover a inclusão das populações migrantes em Florianópolis. Desde 2016, a Círculos desenvolve projetos para atender às necessidades das mulheres imigrantes, oferecendo aulas de português, acompanhamento em consultas médicas e cursos de empreendedorismo. Bruna Kadletz, diretora da Círculos, destaca a importância de personalizar as ações de acolhimento conforme as necessidades específicas de cada mulher.
Por meio de iniciativas que promovem a sensibilização da sociedade e a construção de uma cultura de acolhimento, as mulheres imigrantes buscam ressignificar suas experiências de vida e contribuir para a comunidade local.
Reconhecimento e Direitos das Mulheres Migrantes
O reconhecimento dos direitos das mulheres migrantes é um tema central nas discussões sobre políticas públicas. Gabriela Martini ressalta que é fundamental que a sociedade e o poder público reconheçam a contribuição das migrantes, e que o atendimento às suas necessidades não seja visto apenas como caridade, mas como um direito.
As experiências de Merlina, Beny e Dalia reafirmam a importância de um olhar mais atento e humano para com as mulheres que buscam um novo lar, desafiando estigmas e promovendo a inclusão. Elas são exemplos de resiliência, coragem e determinação, e suas histórias são um chamado à ação por uma Florianópolis mais solidária e acolhedora.

