Desafios Enfrentados por Mães na Academia
A catarinense Cristiani Derner, mãe aos 18 anos, enfrentou muitos obstáculos enquanto tentava ingressar na universidade. Aos 34 anos, com formação em serviço social e lidando com a rotina de mestrado e trabalho, ela reflete: “Eu não tinha renda nem rede de apoio”. Cristiani relembra que só conseguiu retornar aos estudos quando sua filha já tinha oito anos. Para ela, ser mãe na universidade envolve uma luta constante para permanecer no ambiente acadêmico, descrita como uma experiência repleta de sobrecarga e invisibilidade. “Não busco tratamento especial, mas sim equidade”, enfatiza, enfatizando o direito à educação e às oportunidades que isso implica.
O suporte que Cristiani encontrou veio do projeto Mães na Universidade, vinculado à UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), que conecta mães estudantes de várias partes do Brasil. Essa iniciativa representa um movimento que visa aumentar a permanência de mulheres com filhos no ensino superior e na pesquisa.
Iniciativas Nacionais em Favor de Mães Estudantes
No cenário nacional, professoras de pós-graduação que estão grávidas ou têm filhos de até dois anos têm acesso a novos incentivos. O Programa Aurora, lançado pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) em março, irá disponibilizar entre 200 e 300 bolsas para apoiar a continuidade das atividades acadêmicas dessas mulheres. As bolsas incluem a possibilidade de contratação de pesquisadores assistentes.
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A presidente da Capes, Denise Pires de Carvalho, ressalta a importância desse apoio para que as mulheres não precisem se afastar do ambiente acadêmico, especialmente no período de maternidade. “Esse é um momento em que devemos garantir que elas permaneçam e não sejam excluídas do mercado de trabalho”, afirmou à Folha. Ela acrescenta que a iniciativa visa combater o chamado ‘efeito tesoura’, onde a presença feminina diminui nos níveis mais altos da carreira acadêmica, afirmando que o edital deve ser lançado ainda neste mês.
Críticas e Desafios das Mães na Pesquisa
Entretanto, a diretora-executiva da Ampet (Associação de Mães Pesquisadoras Estudantes e Trabalhadoras), Vanessa Suany, expressa preocupações sobre o alcance efetivo dessa medida. “Estudos do movimento Parent in Science indicam que crianças impactam a vida das mães estudantes até pelo menos os seis anos de idade”, adverte. Ela defende a necessidade de uma articulação mais robusta entre ministérios para abordar questões relacionadas à empregabilidade de mães.
A presidente da Capes reconhece que é imprescindível avançar mais nesta questão, apontando que as iniciativas no Brasil para mitigar as desigualdades enfrentadas por mães ainda são limitadas. “Falta uma política estruturante e sistêmica nas universidades”.
Projetos de Apoio nas Universidades Brasileiras
A UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) lançou no início de 2024 o edital Mães Pesquisadoras, que financia projetos submetidos por professoras com filhos. A iniciativa atraiu mais de cem candidatas, levando a instituição a aumentar o número de beneficiadas de 15 para 40. Em 2025, um novo edital selecionou 15 mães estudantes de diversas áreas, oferecendo bolsas de iniciação à pesquisa e propondo a continuidade do apoio até a conclusão da graduação.
Uma das selecionadas foi Thallyana Souza, 42 anos, que pesquisa energia eólica offshore e é orientada por uma professora também mãe. “Esse projeto valoriza nossa inclusão na pesquisa, demonstrando nossa capacidade de avançar e conquistar novas oportunidades”.
Para Silvana Zucolotto, pró-reitora de Pesquisa da UFRN, garantir oportunidades desde a graduação é fundamental. “Se não oferecemos chances na base, talvez essas mulheres nunca cheguem a se tornar professoras ou pesquisadoras”.
Iniciativas da UFRJ e Expectativas do Ministério da Educação
Na UFRJ, o grupo Mães na Universidade surgiu em 2021, atendendo demandas coletivas. As ações, todas gratuitas, incluem oficinas, apoio psicológico e preparação para a pós-graduação. Mithaly Corrêa, uma das idealizadoras do projeto, destaca que as mães na graduação enfrentam desafios maiores, mencionando a falta de infraestrutura adequada e as dificuldades que muitas graduandas enfrentam, especialmente aquelas sem carreiras consolidadas.
Hoje pesquisadora, Mithaly ingressou na UFRJ em 2013, aos 22 anos, com três filhos pequenos. Ela compartilha que sua graduação em geografia levou dez anos para ser concluída, mas a rede de apoio do projeto foi crucial para sua formação. Na quarta-feira (6), ela se preparava para defender sua dissertação de mestrado na UERJ.
No Ministério da Educação, aguarda-se um relatório do Grupo de Trabalho para a Política Nacional de Permanência Materna nas Instituições de Ensino Superior, que busca estabelecer diretrizes para políticas nacionais destinadas a esse público. Entre as propostas está a extensão do tempo de jubilamento para mães estudantes e a oferta de bônus em editais internos. Além disso, as Cuidotecas, espaços projetados para oferecer suporte a mães e pais universitários, são um desdobramento das recomendações do grupo.

