Uma História de Superação e Inovação
Antes de adentrar ao universo da transformação digital, Rui Gonçalves vivenciou uma mudança fundamental em sua vida: a chegada da energia elétrica. Nascido em Barranco Alto, no interior de Ilhota, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, Rui cresceu em uma casa sem luz, sem água encanada e com o banheiro localizado do lado de fora.
Para ir à escola, Rui atravessava um rio em uma bateira, levando seus tênis dentro de um saco plástico para não sujar. Ao chegar ao outro lado, ele lavava os pés, calçava as congas e percorria cerca de três quilômetros até a escola.
A situação da comunidade se agravou quando um canal de drenagem cortou o acesso por terra. A realidade mudou, porém, quando os militares instalaram um acampamento nas proximidades e construíram uma ponte. Na época, Rui tinha pouco mais de dez anos e um tenente engenheiro soltou uma frase que marcaria sua vida: “Para fazer uma ponte, você precisa estudar matemática”. Essas palavras ecoaram profundamente em sua trajetória.
A família de Rui se mudou para Itajaí, onde sua mãe trabalhou como costureira para sustentar os filhos. Desde os 13 anos, Rui começou a trabalhar como office boy e garçom. Seu desempenho acadêmico e também no futebol o abriram portas para um renomado colégio da cidade, onde conseguiu uma bolsa, mediante a apresentação de um atestado de miserabilidade emitido pela prefeitura.
Leia também: Congresso em Florianópolis: Tecnologia e Compras na Segurança Pública em Foco
Leia também: Tecnologia Avança no Combate à Dengue: Redução de Casos no Brasil
Fonte: bahnoticias.com.br
Entrando como exceção social, Rui se destacou, tornando-se um dos melhores alunos de sua turma. Apesar de sonhar com uma carreira na engenharia, ao prestar vestibular, ele escolheu Ciência da Computação por uma questão prática: o curso durava quatro anos, ao contrário dos cinco da engenharia, e tinha aulas em meio período, o que lhe permitiria trabalhar em Florianópolis.
No penúltimo semestre da faculdade, Rui teve uma ideia que mudaria sua vida: ao ver um colega de engenharia civil fazendo cálculos estruturais manualmente, questionou-se: “Não existe um programa para fazer isso?”. E, ao descobrir que existia um software paulista que custava dez mil dólares – inviável para a realidade brasileira da época – decidiu criar sua própria solução.
A Criação da AltoQi
Em 1990, Rui formalizou uma sociedade com dois colegas: José Carlos Pereira, que possuía um carro essencial para as vendas, e Ricardo Eberhardt, considerado o melhor aluno da turma. O nome AltoQi foi sugerido por Ricardo, que também contribuiu para o desenvolvimento do primeiro produto da empresa, o ProViga.
Leia também: Estudantes Criam Logomarca Comemorativa Para os 20 Anos da Escola Mário Gurgel
Fonte: jornalvilavelha.com.br
Leia também: ABAP Bahia Promove Café com Educação: O Futuro da Publicidade no Setor Educacional
Fonte: daquibahia.com.br
O negócio começou em um pequeno apartamento no centro de Florianópolis e depois se mudou para um sótão de apenas 1,70 metros de altura, onde os sócios se curvavam ao se levantar. Era, de fato, uma startup antes mesmo do termo ser popularizado. “Nós não tínhamos dinheiro para um escritório de verdade, mas tínhamos o produto”, recorda Rui.
Tragicamente, em 1993, Ricardo faleceu de câncer, aos 27 anos. Ele era o principal desenvolvedor da empresa e a perda poderia ter significado o fim da AltoQi. No entanto, Rui decidiu unir todos os softwares em um único sistema, inovando no mercado brasileiro com essa integração. Com o apoio de bolsas da Finep e CNPq, o projeto levou quatro anos para ser concluído. O primeiro teste prático aconteceu em um prédio de quatro andares em Tubarão, onde o cálculo levou 11 horas em um computador Pentium 100 – um método revolucionário para a época.
Para homenagear Ricardo, Rui deu ao novo sistema o nome de Eberick, uma referência ao apelido do amigo, e acrescentou um “K” por sugestão de um numerólogo. Lançado em 1996, o Eberick completará 30 anos em maio de 2026, consolidando-se como um dos softwares de cálculo estrutural em concreto armado mais utilizados do Brasil, com cerca de 200 mil projetos desenvolvidos nos últimos dois anos.
A AltoQi Hoje e o Futuro
Atualmente, a AltoQi expande seu escopo além do cálculo estrutural. Com mais de 67 mil clientes em mais de 15 países e um time de mais de 300 colaboradores (na maioria engenheiros), a empresa se posiciona como um ecossistema digital para a construção civil. Em 2025, a companhia alcançou um faturamento de R$ 80 milhões, apresentando um crescimento de 30% em relação ao ano anterior e projetando um faturamento de R$ 110 milhões para 2026.
A nova estratégia da empresa também inclui a entrada da ArcelorMittal como investidora, através do Açolab Ventures, um fundo de Corporate Venture Capital da siderúrgica. Essa parceria facilita a conexão entre a modelagem de projetos e a cadeia industrial de fornecimento de materiais. “Esse foi o início da nova AltoQi. Não se tratou apenas de uma mudança de produto, mas de um reposicionamento no mercado, público-alvo e estratégia a longo prazo”, afirma Felipe Althoff, CEO desde 2020.
Hoje, entre os clientes da AltoQi, estão grandes construtoras do Brasil e instituições públicas, como o Exército e universidades de engenharia. Rui, que no passado atravessava rios para estudar, continua sua jornada de construção de pontes. “Eu ainda construo pontes”, costuma dizer, ressaltando como a construção civil está caminhando para um modelo mais industrializado, onde errar no computador custa infinitamente menos do que errar em uma obra.

