Resposta Diferenciada dos EUA a Desastres no Haiti e na Venezuela
Em 2010, após o terremoto devastador no Haiti, os Estados Unidos mobilizaram um esforço humanitário robusto, com mais de US$ 3 bilhões em ajuda, o que corresponde a pouco mais de R$ 15 bilhões na época. O apoio incluiu a mobilização de cerca de 7.000 soldados americanos e uma medida significativa: a suspensão das deportações de haitianos para o país assolado pelo desastre.
Essa resposta contrasta fortemente com a assistência oferecida pelo governo Trump à Venezuela, também abalada por um terremoto e uma crise política complexa. Até o momento, os EUA destinaram aproximadamente US$ 300 milhões — pouco mais de R$ 1 bilhão — em ajuda, mobilizando uma força muito menor, de cerca de 900 militares, e sem anunciar qualquer suspensão das deportações de venezuelanos.
Contextos Distintos e Políticas Externas em Transformação
As diferenças entre os desastres são notórias: o Haiti é um dos países mais pobres do mundo, o número de vítimas no terremoto foi muito maior e, principalmente, a abordagem dos EUA em relação à ajuda internacional mudou significativamente nos últimos anos. Apesar disso, os paralelos entre os dois países são alarmantes, incluindo o colapso de estruturas de concreto, necrotérios superlotados e críticas dos sobreviventes às respostas oficiais.
Enquanto o Haiti recebeu um esforço coordenado liderado pelos EUA por meio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), a administração Trump desmantelou essa agência e reduziu a assistência a países em desenvolvimento. Ao mesmo tempo, a Venezuela, que há uma década figurava entre os maiores doadores de ajuda na América Latina, passou a necessitar de grandes volumes de assistência devido ao colapso econômico e político.
Leia também: EUA Destinam Menos de 4% da Receita do Petróleo à Ajuda na Venezuela em 2024
Fonte: tcheagora.com.br
Leia também: Número de mortos por terremotos na Venezuela sobe para 2.645
Fonte: atividadenews.com.br
Estratégias Americanas e o Papel do Petróleo na Venezuela
O governo Trump priorizou operações imediatas de busca e salvamento na Venezuela, além de focar na estabilidade política do país, considerado um Estado cliente rico em petróleo, onde empresas americanas têm interesse comercial significativo. Após a captura do líder venezuelano em janeiro, Trump declarou estar assumindo o controle do petróleo venezuelano, com as autoridades americanas supervisionando bilhões em vendas do produto.
Contudo, a maior questão permanece: quanto desse recurso será destinado à ajuda aos sobreviventes e à reconstrução da Venezuela, que enfrenta uma crise de infraestrutura e serviços básicos? Com a desarticulação da Usaid, os US$ 300 milhões anunciados são distribuídos por meio de organizações como a Cruz Vermelha, grupos religiosos e as Nações Unidas, compondo a maior parte dos esforços internacionais de socorro.
Implicações Políticas e Econômicas da Ajuda
John Barrett, principal diplomata americano na Venezuela, declarou que os EUA pretendem manter o engajamento na recuperação do país pelo tempo necessário, com foco em prioridades como abrigo, remoção de escombros, abastecimento de água e geração de energia. Ele ressaltou que a indústria petrolífera venezuelana não foi afetada pelo terremoto e que a produção está em expansão, impulsionada por investimentos americanos e privados.
Especialistas, como o professor Javier Corrales, destacam a disparidade entre a ajuda financeira direta e os lucros controlados pelos EUA na indústria petrolífera da Venezuela, indicando que a assistência americana está condicionada a interesses econômicos superiores aos valores investidos em socorro.
Lições do Haiti e Desafios na Venezuela
A experiência do Haiti mostra que grandes volumes de ajuda externa não garantem sucesso na reconstrução. Projetos americanos, como a construção de usinas, modernização de portos e desenvolvimento da força policial, sofreram atrasos, custos elevados e reduções significativas. O Tribunal de Contas dos EUA apontou que, apesar dos US$ 13 bilhões recebidos, a corrupção e a instabilidade política persistiram, limitando a eficácia da recuperação.
Além disso, forças de paz das Nações Unidas no Haiti estiveram envolvidas em um surto de cólera que matou cerca de 10 mil pessoas, alimentando um sentimento de rejeição à ajuda externa. Essa herança influencia a percepção atual sobre a assistência internacional na Venezuela.
Reflexos Políticos e Estratégicos na Ajuda Internacional
Durante a campanha presidencial de 2016, Donald Trump criticou duramente a ajuda ao Haiti, acusando figuras como Bill e Hillary Clinton de se beneficiarem financeiramente dos esforços de socorro. Na Venezuela, a abordagem adotada pelo governo Trump é mais seletiva, vinculando a ajuda humanitária a objetivos políticos, o que marca uma mudança significativa em relação ao passado.
Sam Vigersky, ex-funcionário da Usaid, destacou que, enquanto os EUA estavam profundamente envolvidos em esforços humanitários globais no período do terremoto haitiano, a atual administração opta por uma ajuda condicionada, alinhada a interesses estratégicos e econômicos.

