O impacto de Beto Stodieck em Florianópolis
Nas décadas de 1970 e 1980, Florianópolis viveu uma transformação cultural impulsionada por uma figura singular: Beto Stodieck. Jornalista e promotor cultural, ele rejeitava o rótulo de colunista social, mas foi justamente essa função que o colocou no centro das atenções da sociedade local, com suas glórias e contradições. Mais do que relatar eventos, Beto tornou-se a voz de uma geração de ilhéus que buscava romper com o provincianismo, trazendo para a cidade influências da vanguarda carioca e novaiorquina.
Se estivesse vivo, Beto completaria 80 anos em 10 de junho. Sua morte precoce, aos 44 anos, em 6 de agosto de 1990, não apagou o impacto de sua obra e personalidade. Jovens que o consideravam um mentor ainda circulam por Florianópolis, reconhecendo a importância das mudanças comportamentais e culturais que ele ajudou a promover. Ao longo de quase duas décadas, assinou colunas em veículos como “O Estado”, “Jornal de Santa Catarina” e “Jornal do Beto”, onde expôs sua visão crítica e irreverente da cidade.
Formação, estilo e influência cultural
Beto Stodieck, formado em Direito, era conhecido por sua inteligência e humor ácido. A produtora cultural Bebel Orofino, amiga próxima, lembra que seus textos carregavam uma linguagem picante e sarcástica, com uma crítica mordaz ao que considerava aspectos cafonas e ultrapassados da sociedade local. Amigo e anfitrião de grandes nomes da música e das artes, como os músicos dos Doces Bárbaros e diversos artistas visuais, ele criou espaços que se tornaram centros de inovação cultural.
Um exemplo é o Stúdio A2, a primeira galeria de arte da Capital, fundada por Beto em parceria com Luiz Paulo Peixoto. O local promoveu artistas contemporâneos como Max Moura e Vera Sabino, sendo reconhecido pelas exposições ousadas e pela reunião da chamada “beautiful people” da época, segundo a amiga Denise Richard.
O livro que retrata sua obra e personalidade
O livro “É tudo mentira – A história segundo Beto Stodieck”, organizado por Bea Porto e Fernanda Lago, reúne uma vasta compilação de suas colunas publicadas nos anos 70 e 80. As crônicas revelam um retrato vívido da sociedade florianopolitana, abordando temas como desquites, traições, modas e comportamentos que ele julgava tacanhos. Sua crítica era especialmente direcionada às madames exibicionistas na Beira-Mar Norte e aos bailes de debutantes que buscavam glamour com atores globais, símbolos do provincianismo local.
Seus textos também destacavam personagens locais e figuras que frequentavam sua coluna, desde artistas e jornalistas até figuras folclóricas e promotores culturais, formando um painel diversificado da sociedade da época.
Críticas sociais e legado
Beto não poupava críticas ao desleixo com o patrimônio cultural e urbano de Florianópolis. Denunciou o abandono de áreas como o aterro da Baía Sul, a derrubada do trapiche Miramar, o mau cheiro e as calçadas esburacadas. Sua coluna em “O Estado” trazia denúncias contundentes contra a censura, erros na imprensa e a influência negativa de construtoras que ameaçavam a Ilha.
Mesmo enfrentando dificuldades como baixo salário e censura, sua visão crítica e olhar multifacetado fizeram dele um cronista essencial para entender a história recente da Capital. O arquiteto e ambientalista Ike Gevaerd ressalta que Beto cruzava fronteiras culturais e sociais com facilidade, trazendo temas globais como o impacto da Aids, a efervescência cultural de Nova York e a queda do Muro de Berlim para o público catarinense.
Reconhecimento e memória em Florianópolis
Hoje, embora Florianópolis não conte mais com Beto Stodieck, seu legado permanece vivo. O colunista Cacau Menezes, seu sucessor em parte do estilo e ousadia, destaca que Beto promoveu uma transição da imprensa tradicional para a modernidade, abrindo a cabeça de muitos leitores e colocando a cidade em um patamar mais conectado ao mundo.
Amigos e colaboradores ressaltam sua criatividade, inteligência emocional e ligação com outras culturas. Bernadete Piazza, revisora de suas colunas e coordenadora do projeto da praça que leva seu nome na avenida Beira-Mar Norte, lembra dele como uma pessoa amorosa e única no jornalismo local.
O acervo fotográfico de Beto Stodieck está sob os cuidados do Instituto Carl Hoepcke, que trabalha para preservar e digitalizar esse material, garantindo que sua contribuição para Florianópolis e para o jornalismo seja reconhecida pelas futuras gerações. Entre os momentos marcantes da sua trajetória, está o episódio em que tentou noticiar a morte de John Lennon diretamente de Nova York — uma prova de sua conexão com eventos globais e seu compromisso com a informação.

